E se eu não quiser casar?

Pode ser difícil de acreditar, mas ninguém é obrigado a casar.

Muitos de nós fomos criados em lares conservadores e tradicionalistas, sob a égide de religiões dogmáticas e punitivistas. Portanto, fomos levados a acreditar que há uma espécie de lista de obrigações que devemos cumprir em vida, de preferência de forma sequencial, sem espaço para erros ou questionamentos, e muitas vezes contendo os seguintes itens: estudar, namorar, trabalhar, ter uma casa, casar, ter filhos, formar os filhos, aposentar, ter netos, morrer e deixar uma herança.

Mas e se, pra você, essa lista não fizer sentido?

Vamos começar com o óbvio aqui, por desencargo de consciência.
Se você seguiu essa lista e é feliz: parabéns!

A intenção dos meus conteúdos não é impedir que você viva a vida da forma como quer e te faz feliz, mas sim ajudar aqueles que estão infelizes acreditando que estão errados por não se encaixarem em “padrões” ou “normas” que foram levados a acreditar serem os únicos aceitáveis; Trazendo uma grande angústia, tristeza, dor e, por muitas vezes, solidão.

Meu propósito não é afastar as pessoas ou silenciá-las (isso a sociedade já faz muito bem), mas sim acolhê-las. Beleza?

Historicamente, o casamento surge junto da noção de propriedade privada.

Servia para unir famílias, fundir propriedades, promover a diplomacia e expandir territórios, fortunas e poder.

Era um instrumento para tentar garantir a hereditariedade, ou seja: ao implicar uma fidelidade compulsória à mulher (que também era vista como propriedade - inicialmente de seu pai e depois de seu marido), garante-se que os filhos sejam daquele homem, portanto sua linhagem e propriedade se perpetuarão após sua morte.

Segundo Regina Navarro Lins, a ideia de casamento por amor surgiu na modernidade, por volta de 1930, mas só se tornou um fenômeno de massas por volta de 1940, incentivado por hollywood.

É natural, então, que uma convenção social que tenha demorado milênios para começar a ser alterada, leve algum tempo para ser questionada, e que o questionamento cause estranhamento.

A ideia de casamento ainda está associada à formação de uma família e, por muitas vezes, a uma “proteção contra a solidão”.

Hoje, um casamento nada mais é do que um papel que estabelece a união de duas pessoas perante o estado (e as vezes perante a uma religião), alterando o estado civil da pessoa e garantindo alguns direitos ao casal que se dispõe a formar uma família.

Há também outra forma de reconhecimento da entidade familiar chamada União Estável, que não altera o estado civil e pode ou não ser registrada em cartório. Quando registrada, garante os mesmos direitos de um casamento em regime de comunhão parcial de bens (outro regime pode ser optado posteriormente).

Mas e se você não quiser constituir uma família?

Bom, você também não é obrigado a estabelecer vínculos sanguíneos e/ou afetivos perante o estado (ou religião).

Com o passar do tempo questionamos cada vez mais as relações tradicionais e todas as implicações que elas trouxeram, em especial porque foram criadas como formas de manutenção de uma estrutura de poder e reforço ideológico.

E não, isso não significa solidão.

Talvez você não encontre carinho, afeto, compreensão, interesse, espaço ou tempo na família em que nasceu e/ou foi criado… Mas isso não impede que encontre em outras relações, como nas amizades, ou mesmo em relações afetivas que não necessariamente precisam ser rotuladas (ou nos formatos que temos hoje).

Se for esse o caso, é importante que as pessoas envolvidas estejam cientes e de acordo, que haja diálogo sincero e frequente, que as necessidades, desconfortos e desejos estejam alinhados, que alterações sejam consideradas, discutidas e avaliadas.

Só não usem isso como desculpa pra serem cuzões… Assumam seus B.Os.

Espero, verdadeiramente, que minhas palavras aqui não sejam distorcidas, esvaziadas, generalizadas, tratadas com insensatez, tão pouco leviandade… Eu acredito e confio que leitura, compreensão, interpretação de texto e discernimento serão usados por quem for atingido por essa mensagem.

Lembrem-se que por trás dessa gélida tela também há uma pessoa.

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Quem viu meu vídeo chamado “Sandyvórcio” sabe que uma das informações que mais causa espanto é eu ser divorciado.

Casei com 24 anos e pouco mais de 2 anos depois me divorciei.

Ninguém me obrigou, mas, vindo de uma criação super conservadora, achei que era o esperado depois de 7 anos de namoro (5 já morando juntos).

Foram 9 anos de relacionamento. Durou o que tinha que durar, vivemos o que tínhamos que viver.

Seguimos o script: Fizemos faculdade, casamos, tivemos uma cachorrinha fofa e um gato serelepe, estávamos construindo uma casa… Discordávamos sobre termos filhos, mas definitivamente não foi o motivo do término.

Na época não me passava pela cabeça questionar nada daquilo que me foi ensinado como “correto”, “normal”, ou "esperado". Por isso eu fui tocando o barco, mesmo infeliz… Até porque, quando alguém casa dizem “game over”, como se a infelicidade fosse inerente.

O fato é que, se o casamento for por pressão social, a infelicidade um dia toma conta e pode se tornar insustentável.

Porém, essa pressão social nem se compara com ser divorciado. Até hoje, quase 10 anos depois, qualquer seguro que eu faça sai mais caro por conta do meu estado civil (e a única forma de alterá-lo é casando novamente).

Apesar disso, o divórcio me caiu bem.

Com o tempo comecei a questionar muitas coisas na minha vida, em especial sobre família, sociedade, cultura, criação, relacionamentos e política.

Também vieram questões sobre mim mesmo. Então fui pra terapia, e hoje sou uma pessoa completamente diferente de quando me casei.

Hoje não me vejo tendo outro relacionamento nos moldes tradicionais.

Isso pode mudar, mas o mais importante é saber que existem opções e que nunca mais eu preciso seguir um script na minha vida. A não ser aqueles que eu mesmo escrevo pros meus conteúdos.

(Mas se você quiser casar, tá tudo bem também)

Publicação original no Instagram (@tilima)

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